29 dezembro 2011

Balanço Ambiental de 2011 – Por Washington Novaes

Balanço Ambiental de 2011 – Por Washington Novaes


Ao se completarem 30 anos da Política Nacional de Meio Ambiente, o grande avanço certamente é a ampliação das consciência da sociedade em torno dos grandes problemas ambientais – que ainda precisa ser traduzida em ações pelo poder público.

Por Washington Novaes, jornalista, é supervisor geral do Repórter Eco. Foi consultor do primeiro relatório nacional sobre biodiversidade. Participou das discussões para a Agenda 21 brasileira. Dirigiu vários documentários, entre eles a série famosa “Xingu” e, mais recentemente, “Primeiro Mundo é Aqui”, que destaca a importância dos corredores ecológicos no Brasil.
Fonte: Repórter Eco

2011 termina com mais um motivo para inquietação, já que a reunião da Convenção do Clima na África do Sul não conseguiu aprovar nenhum compromisso obrigatório para os países reduzirem suas emissões de poluentes que agravam mudanças climáticas. E o último balanço diz que em 2010 elas chegaram a 30,6 bilhões de toneladas de carbono, já próximas do limite de 32 bilhões de toneladas; se ele for ultrapassado, dizem os cientistas, não será possível conter o aumento da temperatura da Terra em 2 graus Celsius – e os chamados desastres climáticos serão muito graves do que já são, atingindo dezenas de milhões de pessoas a cada ano. O Brasil já é um dos cinco maiores emissores do planeta, com mais de 10 toneladas anuais de carbono por pessoa.
Mesmo com todos os riscos, continuamos com mais de 5 milhões de pessoas morando em áreas sujeitas a desastres. E o município de São Paulo anunciou que só daqui a 30 anos livrará a cidade do risco de inundações. Já a Agência Nacional de Águas informou que mais de metade dos municípios brasileiros enfrentarão sérios problemas com abastecimento de água, se até 2025 não foram investidos 70 bilhões de reais. Na área do saneamento, o balanço do IBGE mostra que mais de 50% dos domicílios brasileiros não contam com rede de esgotos.
O ano foi marcado também por intensa polêmica em torno do projeto de novo Código Florestal discutido pelo Congresso. Organizações ambientalistas criticaram principalmente a anistia a proprietários de terras que desmataram áreas de reserva obrigatória, assim como a redução de áreas de preservação à margem de rios, encostas e topos de morros.
Segundo o Ministério do Meio Ambiente, o desmatamento na Amazônia continua acima de 6 mil quilômetros quadrados por ano. E o desmatamento já atingiu 18 por cento do bioma. No Cerrado e na Caatinga, a perda está acima de 50 por cento. Na Mata Atlântica, em 93 por cento.
Os dramas das cidades com o transporte se acentuaram. O país já tem cerca de 40 milhões de veículos. Só em São Paulo, mais de 7 milhões. Mas pouco se tem avançado na implantação de sistemas eficientes de transporte coletivo, que reduzam o número de veículos nas ruas e o nível de poluição do ar.
Já a área de energia foi marcada pela polêmica em torno da implantação da hidrelétrica de Belo Monte, na Amazônia, que chegou até a manifestações no exterior e na Organização dos Estados Americanos.
Começou a ser implantada a Lei Nacional de Resíduos Sólidos, que contém muitos princípios positivos, mas sem vinculação de recursos. E sem definir com clareza se será ou não permitida a incineração de lixo.
Ao se completarem 30 anos da Política Nacional de Meio Ambiente, o grande avanço certamente é a ampliação das consciência da sociedade em torno dos grandes problemas ambientais – que ainda precisa ser traduzida em ações pelo poder público.

15 dezembro 2011

A Economia da Felicidade

A Economia da Felicidade, por Jeffrey D. Sachs, professor de Economia na Universidade de Colúmbia, EUA NOVA IORQUE

"Vivemos numa era de alta ansiedade. A despeito da riqueza mundial sem precedentes, há uma vasta insegurança, inquietação e insatisfação. Nos EUA, uma grande maioria dos americanos acredita que o país está "no caminho errado". O pessimismo está nas alturas, e o mesmo se dá em muitos outros países. Diante desse contexto, é chegada a hora de se reconsiderar as fontes básicas de felicidade na nossa vida econômica. A incessante busca por mais renda está levando a uma desigualdade e ansiedade sem precedentes, em vez de a uma maior felicidade e satisfação com a vida. O progresso econômico é importante e pode de fato melhorar em muito a qualidade de vida, mas somente se for exercido em consonância com outras metas. Nesse respeito, o reino no Himalaia do Butão tem sido o pioneiro. Quarenta anos atrás, o Quarto Rei do Butão, jovem e recém empossado, fez uma notável opção: o Butão iria buscar a "Felicidade Interna Bruta" em vez do Produto Interno Bruto. Desde então, o país tem experimentado uma abordagem alternativa e holística para o desenvolvimento, que enfatiza não somente o crescimento econômico, mas também a cultura, a saúde mental a compaixão e o senso de comunidade. Dúzias de especialistas recentemente se reuniram na capital do Butão, Thimphu, para fazer um balanço do desempenho daquele país. Fui o co-anfitrião com o Primeiro Ministro, Jigme Thinley, um líder em desenvolvimento sustentável e um grande campeão do conceito de "FIB". Reunimos-nos na seqüência de uma declaração que foi feita em julho pela Assembléia Geral das Nações Unidas, que por sua vez convocou seus países membros para que examinassem como que suas respectivas políticas nacionais poderiam promover a felicidade em suas sociedades. Todos aqueles que se reuniram em Thimphu concordaram com a importância de que seja buscada a felicidade em vez da renda nacional. A questão que examinamos é como se alcançar a felicidade num mundo que está caracterizado pela rápida urbanização, mídia de massa, capitalismo global e degradação ambiental. Como que a nossa vida econômica pode ser re-ordenada para recriar um senso de comunidade, confiança e sustentabilidade ambiental? Em seguida listo algumas das conclusões iniciais. Primeiro não deveríamos denegrir o valor do progresso econômico. Quando as pessoas estão com fome, privadas das suas necessidades básicas, tais como água limpa, assistência medica e educação, e sem um emprego significativo, elas sofrem. O desenvolvimento econômico que mitiga a pobreza é um passo vital na promoção da felicidade.
Em segundo lugar, a incessante busca pelo aumento do PIB com a exclusão de outras metas também não é o caminho para a felicidade. Nos EUA, o PIB aumentou agudamente nos últimos 40 anos, mas a felicidade não. Em vez disso, a obcecada busca pelo aumento do PIB gerou maiores desigualdades de riqueza e poder, impulsionou o crescimento de uma vasta subclasse, aprisionou milhões de crianças na 2
pobreza, e provocou uma séria degradação ambiental. Em terceiro, a felicidade é alcançada através de uma equilibrada abordagem à vida tanto pelos indivíduos quanto pelas sociedades. Como indivíduos, ficamos infelizes se nos forem negadas as necessidades básicas materiais, mas também ficamos infelizes se a busca por maiores rendas substitui nosso foco na família, amigos, comunidade, compaixão e na manutenção de um equilíbrio interior. Como sociedade, uma coisa é organizar as políticas públicas para manter os padrões de vida ascendentes, mas outra bem diferente é subordinar todos os valores da sociedade na busca do lucro. Mesmo assim a política nos EUA tem cada vez mais permitido que os lucros corporativos dominem todas as demais aspirações: e de, justiça, confiança, saúde física e mental, e sustentabilidade ambiental. As doações feitas por corporações nas eleições cada vez mais corroem o processo democrático, com as bênçãos da Suprema Corte dos EUA. Em quarto, o capitalismo global apresenta muitas ameaças diretas à felicidade. Ele está destruindo o meio-ambiente natural através da mudança climática e de outros tipos de poluição, enquanto que a incessante torrente de propaganda da indústria petrolífera mantém muita gente ignorante disso. Ele está debilitando a confiança social e a estabilidade mental, com a prevalência de depressão clínica aparentemente em ascensão. Os meios de comunicação em massa se tornaram meros pontos de venda para as "mensagens" corporativas, e com isso os americanos sofrem de uma crescente gama de vícios consumistas. Considere como a indústria de fast-food usa óleos, gorduras, açúcar e outros ingredientes viciantes para criar uma insalubre dependência em alimentos que contribuem para a obesidade. Um terço de todos os americanos é obeso. E o resto do mundo irá eventualmente nos seguir a menos que os demais países restrinjam essas perigosas práticas corporativas, incluindo a publicidade de alimentos insalubres e viciantes para crianças pequenas. Mas o problema aqui não é apenas a alimentação. A publicidade de massa está contribuindo para muitos outros vícios, que por sua vez implicam em grandes custos de saúde pública, incluindo excesso de TV, jogatina, uso de drogas, tabagismo e alcoolismo. Em quinto, para promover a felicidade, precisamos identificar os diversos fatores além do PIB que podem elevar ou baixar o bem-estar da sociedade. A maioria dos países investe para medir o PIB, mas despende pouco para identificar as fontes de uma saúde sofrível (como fast-foods e excesso de TV), de uma declinante confiança social e da degradação ambiental. Uma vez que compreendamos esses fatores, podemos agir de acordo. A insana busca por lucros corporativos está nos ameaçando a todos. Na verdade, deveríamos apoiar o crescimento econômico e o desenvolvimento, mas somente num contexto mais amplo: que promova a sustentabilidade ambiental e os valores de compaixão e honestidade que são requeridos para a confiança social. A busca pela felicidade não deve ficar confinada àquele lindo reino montanhês do Butão. "

Jeffrey Sachs é Professor de Economia e Diretor do Earth Institute na Universidade de Colúmbia. Ele também é Conselheiro para o Secretário Geral das Nações Unidas no tocante às Metas de Desenvolvimento do Milênio.

07 novembro 2011

Ser como criança

“Seja muito, muito simples, livre de complexidades, bem natural, como são as crianças pequenas, despreocupadas sobre o que ocorreu no dia de ontem ou com o que poderá acontecer amanhã, mas vivendo e aproveitando o eterno Presente , o Agora em toda sua plenitude. Nunca tente possuir nada, nem tente se agarrar ao que quer que seja, por que quando você o faz, já não pode ser como são as crianças, pois fica repleto de medo, com medo de perder aquilo a que está tentando se agarrar. Quando você é capaz de abrir seu coração e compartilhar todas as boas e perfeitas dádivas que nos são proporcionadas, sem se apegar a nada, então saberá o verdadeiro significado da liberdade de Espírito e estará verdadeiramente livre. Quando tudo está fluindo neste espaço aberto e você não tem nada a esconder, que sensação mais gloriosa esta é!”

Tradução livre de Findhorn Community, Eileen Caddy.

26 outubro 2011

Faxina na Alma - Carlos Drummond Andrade

"Não importa onde você parou...em que momento da vida você cansou...o que importa é que sempre é possível e necessário recomeçar.Recomeçar e dar uma nova chance a si mesmo...e renovar as esperanças na vida e o mais importante:acreditar em você de novo.Sofreu muito nesse período? Foi aprendizado...

Chorou muito? Foi limpeza da alma...Ficou com raiva das pessoas? Foi para perdoá-las um dia...Sentiu-se só por diversas vezes? É porque fechaste a porta até para os anjos...Acreditou que tudo estava perdido? Era o início da tua melhora...Pois é... agora é hora de reiniciar...
de pensar na luz...
de encontrar prazer nas coisas simples de novo.Que tal um novo emprego?Uma nova profissão?Um corte de cabelo arrojado, diferente?Um novo curso...
ou aquele velho desejo de aprender a pintar...
desenhar...
dominar o computador...
ou qualquer outra coisa...Olha quanto desafio...
quanta coisa nova nesse mundão de meu Deus te esperando.Está se sentindo sozinho? Besteira...
tem tanta gente que você afastou com o seu "período de isolamento"...tem tanta gente esperando apenas um sorriso teu para "chegar" perto de você.Quando nos trancamos na tristeza...nem nós mesmos nos suportamos...ficamos horríveis...o mal humor vai comendo nosso fígado...até a boca fica amarga.Recomeçar...
hoje é um bom dia para começar novos desafiosOnde você quer chegar?
Ir alto...
sonhe alto...
queira o melhor do melhor...queira coisas boas para a vida...
pensando assim trazemos para nós aquilo que desejamos...pensamos pequeno...
coisas pequenas teremos...já se desejarmos fortemente o melhor e principalmente lutarmos pelo melhor...o melhor vai se instalar na nossa vida.E é hoje o dia da faxina mental...joga fora tudo que te prende ao passado...
ao mundinho de coisas tristes...Fotos...
peças de roupa, papel de bala...
ingressos de cinema...bilhetes de viagens...
e toda aquela tranqueira que guardamos
quando nos julgamos apaixonados...jogue tudo fora...
mas principalmente...
esvazie seu coração...fique pronto para a vida...
para um novo amor...Lembre-se: somos apaixonáveis...somos sempre capazes de amar muitas e muitas vezes...afinal de contas...Nós somos o "Amor"...Porque somos do tamanho daquilo que vemos,
e não do tamanho da nossa altura."

Texto cedido pelo querido professor e amigo João Cortez.

15 abril 2011

Ativismo Quântico, criatividade e o propósito da existência

Já ouviu falar em Ativismo Quântico? Pois bem, estive em um workshop ministrado pelo célebre físico indiano Amit Goswami (http://amitgoswami.org), organizado pela Editora Aleph em São Paulo, e logo nos primeiros cinco minutos desatei a chorar. Foi choro de alma, pois na fala dele visualizei tudo o que tenho aprendido de mais relevante nessa jornada de autodesenvolvimento que é a yoga, e também o trabalho voltado à “sustentabilidade”. Compartilho aqui um pouco do que vi e aprendi por lá: O trabalho do Dr. Amit, PhD., está centrado no conceito de não-localidade, isto é, não local é tudo aquilo que está fora do espaço e do tempo, de modo compartilhado e interconectado. A consciência, por exemplo! Segundo Amit, a capacidade de amar – e de aprender – está “armazenada” num espaço não-local, e não dentro do cérebro, como prega a ciência tradicional mecanicista há anos, inclusive por meio da educação que a maioria de nós recebeu. Minha grande descoberta – e emoção - foi ver fundamento científico (de acordo com a física quântica) para algumas das vivências mais marcantes que já tive durante estados de meditação profunda, em que experimentei o “jorrar” de um amor imenso e intenso, vindo de uma fonte primordial, um único ponto guardado em algum lugar do universo e capaz de emanar todo o amor, a glória e a bondade que existem manifestados neste mundo. Bem, voltando ao workshop, tudo começou com uma pergunta simples e complexa ao mesmo tempo: Qual o propósito da vida?? Para Amit, a vida é uma agenda de aprendizado (o que concordo totalmente – quem não vive suas “lapidações”?). Para podermos vivenciar o verdadeiro Amor e a Graça que esta vida pode nos oferecer, temos que escolher hábitos de vida que nos possibilitem cumprir com nossa “agenda”. Mas que agenda é essa? Para Amit, o “Dharma” é a agenda de cada um, a missão que cada um tem a desempenhar neste mundo, e ao cumprir com este nosso propósito sentimos imensa felicidade, alegria, bem-aventurança (em minha jornada, aprendi que para descobrirmos qual é o nosso Dharma, devemos investir em conhecer a nós mesmos e nos desenvolver espiritualmente). Falou-se também sobre a Criatividade, que pode ser traduzida como o processo de encontrar novos significados, e o grande mecanismo para mudarmos o atual estado do mundo. Para Amit, os estágios do processo criativo são: - Preparação (ego em ação - buscamos diversas informações sobre o assunto em questão) - Incubação (período em que processamos de alguma forma as informações) - Insight repentino (aquela “luz” que se acende...). Para isso, precisamos estar relaxados, meditar, “abafar” o ego. Não por acaso, minhas melhores idéias surgem ao sair da empresa, ao entrar no banho ou ao acordar. Já passou por isso? - E finalmente a manifestação da nova descoberta, colocada em ação. Por isso, para podermos criar e renovar nossa própria existência, permitindo que infinitas possibilidades venham à nossa vida, Amit nos propõe o intrigante (e até mesmo engraçado!) modelo do “do-be-do-do”, ou seja, o “fazer-ser-fazer-ser-fazer...”. Em nosso cotidiano, especialmente no mercado de trabalho, valoriza-se apenas o fazer, fazer e fazer. Não por acaso, acabamos estressados, com a mente embotada, saúde abalada, relacionamentos colocados em segundo plano e com pobreza de idéias e dificuldade de encontrar soluções para nossos desafios. A solução? Abrir espaço para simplesmente Ser. Par mim, isto é meditar, relaxar, ter momentos de ócio e contemplação, contato com a natureza, o sagrado, a arte, o bem, o belo.... Isto trará energia renovada e capacidade de criar, inovar, encontrar as respostas que procuramos. Isto tudo está fundamentado na idéia de que é a consciência – e não a matéria – a base de toda a existência – e para criar, inovar, é preciso dar ouvidos e asas à nossa verdadeira consciência. Ele propõe uma nova Ciência, pautada pela física quântica, que harmonize a visão cientifica com a visão das diversas tradições espirituais, manifestada por meio de um movimento coletivo – eis o Ativismo Quântico - para disseminação de uma nova visão de mundo capaz de alavancar o processo de transformação global que tanto se discute atualmente. Desafiador? Não para Amit Goswami! Aprofundarei este tema no próximo artigo.

10 março 2011

Reinventar o mundo ou a nós mesmos?

Artigo de Washington Novaes publicada esta manhã revela que bastaria 1,3 trilhão de dólares por ano para transformar a economia global numa "economia verde", segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Pois é, com apenas 2% do PIB mundial seria teoricamente possível migrar do atual estado de extração predatória, produção poluente, consumo e descarte irresponsável para novas práticas que viabilizem o desenvolvimento sem destruir o nosso meio. Não é muito, se pensarmos que são gastos US$ 1,4 trilhão com orçamentos para “defesa” das nações em todo o mundo por ano.
(veja lista dos países que mais gastam com defesa em http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Lista_de_pa%C3%ADses_por_gastos_militares).

Longe de ser apenas um questão econômica, o que se demanda é uma mudança de foco – investimentos na paz por meio da construção da nova economia, sustentável e inclusiva, capaz de engrenar num movimento rumo ao desenvolvimento sustentável. “Apenas” US$ 420 bilhões são necessários por ano para solucionar a fome e os mais graves problemas sociais em todo o mundo - que são, afinal, a grande causa dos principais conflitos, instabilidades políticas e ameaças ao ambiente. Um ser humano sempre optará por sua sobrevivência - diante da miséria vale tudo para garantir a comida, mesmo que isso signifique destruir o meio em que vive, seja pela agricultura e extração predatória, poluição das águas, do solo, etc. Mas não estamos falando apenas de sobrevivência dos mais pobres, mas de ganância desenfreada de quem tem acesso e controle da riqueza.

Vejamos - se estes números são mais do que conhecidos, idem os problemas, idem as soluções possíveis, se temos os fóruns adequados para discutir articulações internacionais a altura destes desafios, conhecimento e tecnologia, por que simplesmente nada realmente consistente e decisivo é realizado para a mudança global? Pelo contrário, a destinação de recursos dos países ricos para ajudar a aplacar a miséria dos maios pobres tem diminuído para míseros 0,30% do PIB - não chega a meio por cento de toda a riqueza gerada no mundo!

Quanto mais trabalho com questões de sustentabilidade, mais vejo que a verdadeira reinvenção tem que partir de dentro para fora. Sempre que há uma reunião para discutir problemas comuns, começa o jogo de empurra, a defesa dos interesses particulares, a fatiação da solução. Esse atual estado do mundo - equivocado, ignorante e até mesmo esquizofrênico, é reflexo das pessoas vivendo em sociedade e que simplesmente não se identificam com seu meio. Vivem iludidas, achando que o meio está ali para lhes servir sem limites.

De um modo geral, as pessoas estão identificadas demais com seus próprios interesses, e no topo da lista estão sempre aspirações puramente materialistas. O que importa é ter, cada vez mais. Claro que todos nós queremos prazer e conforto, a questão é: qual o limite? E quais os meios para alcançá-lo? É raro haver um senso de propósito ou de real significado para o que quer que seja (a atenção ao Ser está esquecida, ou muito pouco lembrada).

Quem tem poder político e econômico para gerar grandes transformações, em geral não está disposto a abrir mãos de nada importante em benefício do bem estar comum. Muitos “grandes líderes” não se importam com as conseqüências de suas decisões, e ainda tentam escamotear a realidade. É triste. Mesmo que isso signifique acabar com tudo, com nossa própria qualidade de vida, nos condenando a uma vida miserável e colocando em risco o que conquistamos.

Para reinventarmos o mundo, o que precisamos é partir de uma autotransformação – novos pontos de vista, novas visões de mundo, resgate de valores universais, pois somos seres universais. Não dá para reinventar nada com base em visões que deveriam estar ultrapassadas. O que é realmente importante para todos? Queremos de fato um mundo sustentável? Queremos mesmo ser felizes? Como buscamos esta felicidade? Para que estamos fazendo tudo o que fazemos? Conforme me disse em querido professor e sábio mestre – somos seres espirituais, vivendo uma existência material, e não seres materiais com ocasionais vivencias espirituais. É mudar tudo ao mesmo tempo, nós e o mundo, sentir e pensar diferente para agir diferente. Esta mudança requer o resgate de nossa dimensão humana e o acordar para todas as nossas potencialidades, só assim poderemos nos reconhecer como parte deste meio e agir (naturalmente) para o uso dos enormes e maravilhosos recursos de que dispomos, sem destruir.

Cada um de nós deve se conhecer em profundidade para compreender seu real papel neste mundo, para poder viver de acordo com seus próprios valores, assim será mais fácil encontrar a maneira certa de agir e tomar as decisões que beneficiem o todo. Não precisamos mudar sete bilhões de pessoas, mas criar uma massa crítica de lideranças e multiplicadores para fazer a grande e necessária transformação acontecer. Este é um processo que começa com cada um cuidando de si e influenciando os demais, não adianta querer delegar para a ONU ou a OMC.

Veja a íntegra do artigo de W. Novaes em:

http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,reinventar-o-mundo--a-tarefa-da-rio--20,687748,0.htm

11 janeiro 2011

Na essência, sustentabilidade é uma questão de espiritualidade

Em recente post no blog "Nosso Futuro Comum", Claudia Chow comenta o novo filme "A Hora Final" e clama pela solidariedade para o alcance de uma sociedade mais sustentável.

Após 10 anos de atuação profissional com foco em políticas de sustentabilidade e temas "socioambientais" (de governos a corporações e ONGs), e passando por um intenso processo de auto desenvolvimento por meio da yoga e outras técnicas de autoconhecimento e ampliação da consciência, sinto como verdade em cada célula do meu ser que a abertura espiritual de cada um - com uma consequente projeção em escala global - é caminho inexorável para alcançarmos uma consciência mais ampla, a partir da qual poderemos modificar nosso propósito e modelo de vida. Somente munidos de uma nova visão é que poderemos colocar a economia e o mercado a favor da qualidade de vida e da felicidade das pessoas, ao invés da atual situação, em que somos escravos cegos de um sistema econômico que visa somente ao consumo e com ele caminhamos rumos à nossa própria destruição.

A análise de Claudia, abaixo, traz um retrato muito atual - e lúcido - da situação. Agora, vejamos - existe alguma outra forma de modificar o padrão ideológico predominante, que não passe por uma expansão e reconfiguração de cada um de nós no plano individual, projetando uma nova visão em larga escala para o plano coletivo? Se cada um fizer a sua própria revolução interna (autodesenvolvimento, ou seja, a suprema valorização do "Ser"), naturalmente passará a praticar - em seu trabalho, família, vizinhança e por onde mais passar - uma forma mais sustentável de vida - novos valores para novas práticas. Senão, quem fará por nós? Formamos a humanidade, e a mudanca tem que vir de dentro para fora, não há outro modo.
As três questões que mais intrigam o Homem, desde a mais remota época, são as clássicas "quem somos", "de onde viemos" e "para onde vamos"?. Porém, a busca pelas respostas tem sido delegada para a "Ciência", como se algum técnico de laboratório ou um astrônomo atrás das lentes pudesse nos trazer as respostas. Sem um propósito firme na vida e a noção de que cada um é responsável por tudo o que acontece consigo, e ciente também que tudo o que fazemos produz uma consequência - e que somos responsáveis, portanto, pelo que produzimos no mundo - falar em sustentabilidade acaba sendo mera retórica. Meditemos nesses conceitos. A meditação remove a ignorância ("não-saber"), traz clareza e verdade.

Post de Claudia Chow sobre "A Hora Final", em "Nosso Futuro Comum

"Os cientistas avisam que bilhões, vários bilhões de seres humanos, irão perecer e levar consigo outros tantos bilhões de seres vivos. Provável não ter mais saída. A razão para essa crença é que fazemos parte de uma teia interligada, somos totalmente dependentes dela e nós já a destruímos de forma irreversível em vários itens, polinização, água, solo fértil, clima e sequer cogitamos parar de destruir. E muitos se enganam sobre a forma para pararmos. Para piorar, a maior parte das pessoas – os comuns – está completamente inconsciente sobre o que está por vir. Já a classe dirigente, a superclass, temos duas categorias: os que sabem e fingem não saber e os que não sabem ou escamoteiam as ameaças com soluções tecnológicas impossíveis de se concretizar. Enfim, ainda somos regidos pela ganância, individualismo e ignorância sobre os elos vitais que nos trouxeram até aqui. Teríamos que mudar para solidariedade, coletividade e conhecimento imediatamente e em escala universal para conseguirmos nos adaptar às mudanças inevitáveis que vem pela frente. Isso está fora de questão. As pessoas ainda são muito cruas e incompletas para tal mudança. Não consigo festejar nem com os seminários que parecem raves e reúnem bacharéis em torno da sustentabilidade, porque só se fala muito sobre isso, mas sem nada concreto, muito menos uma mudança profunda e reversão total de valores dos que falam. Na verdade, continuamos com o pé no acelerador em direção ao precipício. Os principais projetos pelo mundo afora ainda são megaconstruções, crescimento populacional contínuo, obesidade e falta de saúde alarmantes, erradicação da pobreza através de disseminação do consumismo para todos com a indústria cuspindo estruturas insustentáveis como carros, aviões, armas, etc. a cada segundo. Todos agem como se o território do planeta fosse inesgotável para essa materialização contínua e o projeto econômico e político é sempre o mesmo, só que a cada vez maior velocidade. Não tem jeito. Nós iremos continuar nosso aprendizado de forma intangível, em outras dimensões, onde até ali poucos de nós irão se encontrar. Rezo para depois achar o sentido disso tudo, dessa perda de consciência de coletividade tão profunda que está por trás da nossa extinção iminente e do fim da vida nesse planeta. O que mais assusta é ver o risco de fim da água e da comida, dois itens sem os quais não teremos nada e dois itens que nada contribuímos para existirem. "